Month: September 2020

  • 180 dias e 8 horas

    180 dias e 8 horas

    Pelo bem ou pelo mal, já se passaram seis meses. Ainda estou aqui. Parabéns às minhas memórias, por persistirem quando eu mesma queria esquecer.

    Oi. Espero de verdade que você que está lendo isso esteja bem. Aqui, as coisas seguem — a que custo, eu ainda me pergunto. Faz tempo que não dou notícias, mas não se preocupe. Sigo no automático, como quase todo mundo que conheço. Tem dias em que levantar da cama parece só mais um gesto mecânico. Os dias se confundem, iguais, repetidos, e tudo vai perdendo o sentido. Da minha janela vejo a Radial Leste; o som dos carros às vezes me irrita, mas também me lembra que existe vida lá fora. E isso, de alguma forma, me acalma. O mundo não para, mesmo que por aqui tudo pareça suspenso, em coma.

    Fiz uma tatuagem durante a pandemia. Pensei mil vezes antes, mas fui assim mesmo. Talvez eu não queira guardar lembranças desse período, mas a tinta na pele está aqui, e eu também estou, escrevendo. Sou boa com datas, infelizmente. Esse ano eu prometi esquecer o seu aniversário. O primeiro ano em que tentei de propósito. Duvido que eu consiga. Minha memória é uma prisão, e nesses tempos em que não há novas experiências para sobrepor, tudo fica ainda mais vívido.

    Seis meses. Seis ciclos de trinta dias. O ano já quase acabou. Pra você também parece um ano perdido? Eu sei que você anda estudando. Aqui também tem sido um caos: faculdade, cursos, um por cima do outro. Cansaço, saudade, ansiedade, noites sem dormir — mas nada fora do comum. Quando me perco em pensamentos, tentando planejar algo, acabo viajando no tempo. Às vezes no seu, às vezes no meu. Existe uma camada de lembranças no meu cérebro que imagino como o recheio de um naked cake de casamento chique: branco, gorduroso, cheio de dopamina e ocitocina, escondido, só acessível nas madrugadas em que fico encarando o teto. E me pergunto se meu sistema nervoso ainda responde a alguma coisa. 9393 quilômetros de distância. Maldita serotonina.

    Esse ano eu falhei. Na verdade, nem tentei muito. Descobri que funciono melhor na rotina, riscando os dias no calendário, vendo a vida andar sozinha. Questiono se eu preciso mesmo estar aqui, já que tudo continua girando, independente do que eu faça. Esse ano nada pareceu fazer sentido: nem sonhos, nem pesadelos, nem histórias de amor. Foi o ano em que fiz trinta. Será que aquela versão antiga de mim teria orgulho do que me tornei? Talvez só eu me importe com esse passado. E confesso: às vezes, deixar de existir parece mais simples do que continuar.

    Quantos cento e oitenta dias ainda faltam?