Month: July 2025

  • in den Abgrund blicken

    in den Abgrund blicken

    Ela chega como uma onda fria. Uma ausência de vontade de ter vontade. Vai se espalhando pelas cobertas, escorrendo pelo chão, entrando na comida, grudando nas paredes. De repente está no meu cabelo, na minha roupa, na escova de dentes, no copo de água que eu bebo sem pensar.

    Não é como se algum dia tivesse ido embora. Ela fica por perto, rondando, esperando qualquer brecha para voltar. E eu já me acostumei a esses períodos em que ela aparece, desfaz a mala e se instala ao meu lado sem pedir permissão. Fica por meses. Me paralisa.

    É o hóspede que ninguém quer, mas que já tomou conta da casa. Mexe nas minhas coisas, respira o meu ar. Não sei se algum dia vai embora.

    Que merda.

    Os padrões voltam. As insatisfações. As tristezas. Da última vez que isso aconteceu tenho lembranças soltas. Meu mundo era outro. Descobri formas de lidar que hoje não funcionam mais. Talvez seja por isso que ela voltou. E sempre começa do mesmo jeito: um comportamento auto‑depreciativo, uma auto‑objetificação disfarçada de hedonismo.

    A penúltima, e uma das mais graves, foi há quase dez anos. Um fantasma isolado no velho mundo, já grisalho, que às vezes ainda aparece de repente, no meio de pensamentos soltos e memórias que não batem com a realidade. Nessas horas eu me forço a lembrar, quase como um mantra automático, que aquilo foi um dos piores episódios passados. Eu me deixei manipular e aquilo me corroeu até triturar a alma. Foram noventa dias de algo que nunca deveria ter existido na minha vida. Tudo aconteceu como uma cascata, um azar puxando o outro, a cada biênio. A primeira, essa, e a última.

    O ano em que a pandemia estourou marcaria o próximo ciclo. Mas, por maturidade ou acaso, passamos ilesos por esse. Seguiu tranquilo, como um sopro de paz misturado com um pouco de insegurança. Sou dada a intensidades, mas naquele momento não havia caminho. E assim se foi, seguindo firme até pouco tempo atrás.

    O fato é que o fim era inevitável. E com ele vai embora também uma parte da esperança. Essa é a que mais dói deixar partir. Era a esperança de que a constância me fazia bem, de que eu poderia permanecer focada em mim mesma, ancorada no presente, sem me distrair com o que vinha de fora. Mas agora me vejo novamente seduzida e esmagada pelo peso do que poderia ter sido, presa às pequenas coisas do que já passou. Coisas que eu jurava serem boas. Ou talvez o presente já tenha virado passado e eu ainda não tenha percebido que estou silenciosamente iniciando um novo arco.

    Eu gostaria de encerrar este texto com um tom otimista, mas sinto que ainda existe um longo caminho até que eu volte a enxergar dias melhores. Queria estar no controle das minhas emoções e, principalmente, queria recuperar alguns princípios que se perderam pelo trajeto. A vida, no entanto, não é simples. Esses princípios que ficaram para trás mexeram com algo dentro de mim e talvez isso não possa mais ser recuperado.

    Meu ceticismo em relação ao meu próprio destino ainda pode me arrastar para o abismo que tenho encarado com frequência. Fico me perguntando se o abismo também me encara de volta ou se somos apenas um caso platônico, um objetificando o outro.

  • Eu ando tão down

    Eu ando tão down

    Evocando Cazuza antes mesmo do café.

    Antes de tudo, um aviso digno de rodapé de bula: depois de anos em terapia e algum grau de autoconhecimento, cheguei à conclusão de que sou especialista em sabotar a mim mesma. Corro atrás de picos de euforia como quem coleciona ressacas. Vivo de adrenalina parcelada e endorfina em conta-gotas. Um hedonismo doméstico, desses que se pratica entre silêncios e devaneios.

    Mas, veja só, as escolhas têm consequências. E elas cobram juros.

    O mais curioso? Não são os grandes choques que me derrubam, mas as pequenas rachaduras no que deveria ser estável. O que era feliz se torna chato. O que era neutro vira insuportável. E então chega ela: a insatisfação. Disfarçada de tédio, comendo pelas beiradas, implacável.

    Confesso: meus momentos mais “estáveis” foram aqueles em que me mantive ocupada só para não pensar. Durante a pandemia, viver distraída foi uma espécie de escudo emocional. Fiz de tudo para não parar. Para não sentir demais. Para não ouvir o que vinha de dentro.

    Mas no fim de 2021, a vida resolveu me parar à força. Primeiro veio o diagnóstico. Depois, a despedida mais difícil que já vivi: meu gatinho se foi. A ausência dele foi um buraco grande demais. Fiquei ali, no fundo. Tentando aprender a respirar de novo.

    Subi devagar. Sem pressa. Sem mapa. Apenas tentando não voltar para aquele lugar escuro. E quando enfim alcancei a superfície, uma maré boa me encontrou. Mas a sorte, essa criatura volúvel, é descompromissada, e vem se afastando aos poucos.

    Hoje, ainda sinto algo dela pairando por perto. Um sopro. Um vestígio. Encerrar essa fase não significa cair de novo. Aprendi a seguir mesmo sem saber onde exatamente estou pisando. Viver dentro do que é real, possível e controlável é, infelizmente, aquilo que aprendi a fazer melhor.

    Tem gente que sonha com mares calmos. Com águas mornas onde se pode boiar sem medo. Eu, por outro lado, acho que preciso da inconstância. Um instante de calma e, no seguinte, estou descendo ribanceira abaixo com o corpo em chamas.

    Queria ser menos assim, mas quando a tristeza me alcança, meu instinto visceral é procurar problemas.