Month: May 2026

  • My name it means nothing, my fortune is less

    My name it means nothing, my fortune is less

    Você não sabe de onde eu vim. Não faz ideia do que me atravessou até aqui. Eu não nasci no seu mundo, nem na sua época. Cresci longe de qualquer promessa, sustentada pelos meus próprios joelhos ralados. Sou do tipo que olha com suspeita para famílias de comercial de margarina e organiza traumas infantis como quem completa álbum de Copa: um por um, em quase dez anos de tratamento contra o apagamento. Fui esculpida nas ruínas e criada no lixo do capitalismo tardio.

    O luxo de ter, nunca nasceu da ânsia, como em tantos outros. Nasceu do cansaço. Da exaustão de viver sempre à margem da própria vontade. E esse tal “tédio de possuir” simplesmente não existe para quem passou a vida inteira sentindo que ocupava espaços por engano, mesmo quando finalmente eram seus. Conheço tantos: tão mais bem criados, tão menos inteiros. Talvez exista algum mérito em ser estraçalhada pela vida e ainda assim se remendar com arroz cozido. Seria esse o Kintsugi mais triste do mundo?

    Aqui, deste lado da ponte, toda a literatura do miserável que você leu para o vestibular deixa de ser teoria e vira carne, rotina e sobrevivência. Existe um aprendizado que nasce da falha, da improvisação: lares desestruturados; famílias tentando se adaptar a jornadas exaustivas enquanto carregam a herança cruel de repetir o passado de cem anos por mais cem anos, em um ciclo ininterrupto de azares acumulados, em cascata.

    Existe o medo da morte e, talvez pior, o excesso de vida que sufoca. Uma precarização tão profunda que convence você de que o próprio tempo já não lhe pertence. Ao redor, pessoas sequer separam o sentimento visceral das próprias emoções, incapazes de sustentar o peso da própria existência.

    E o silenciamento emocional se espalha como doença hereditária. Passa de um para o outro, depois para o próximo, e para o próximo. A corrente que me prende, apertada ao redor do pescoço de quem nasceu tarde demais para escapar e cedo demais para entender.

    Crescer no meio desse entulho transforma a gente em meio bicho, sabe? Aos poucos me nasceu uma carapaça, tal qual um besouro escurescido. Uma blindagem construída para sobreviver, pesada pra caralho. E a gente vai ficando cinza. Vai aprendendo a enxergar os outros cinza também.

    Tenho entendido, finalmente, que passei a vida acreditando ser forte, quando talvez eu seja só amedrontada. Meus patuás não são santos, são planos. Projetos. Pequenas arquiteturas mentais que me garantem, vez ou outra, a sorte de um instante tranquilo. Guardo tudo aqui dentro da cabeça, como quem empilha saída de emergência.

    Existe algo profundamente humilhante em descobrir tarde demais que o que faltava não era força, mas cuidado. Não esses afetos barulhentos que as pessoas exibem como troféu, e sim algo menor, quase invisível. A delicadeza rara de ser percebida no agora. A presença que se confunde com permanência.

    Existe um pesar silencioso em perceber que certos tipos de afeto só sobrevivem enquanto são passageiros. Enquanto cabem no intervalo breve entre o desejo e o tédio, no toque rápido, na curiosidade afiada de quem admira algo anti-frágil sem jamais cogitar carregá-lo consigo.

    Como quem segura um objeto delicado apenas pelo encanto temporário do proibido.

    Depois a vida continua. As pessoas voltam aos seus papéis, para os lugares onde pertencem. O ato é um arfar ao vento, incapaz de ser ouvido ou capturado. Um momento fugaz.

    Se mil vezes vivido, seria mil vezes esquecido.

    Deste lado da ponte, ser cuidado nunca foi linguagem. Algo estrangeiro, observado de longe. Uma beleza melancólica, pesada, incompleta, doméstica. Incapaz de impregnar na impermanência. E dói justamente por isso. Porque existe uma violência silenciosa em te colocarem como igual quando o corpo inteiro ainda se lembra da vergonha do querer, emudecido, da fantasia do pertencimento, mesmo que por dois décimos de segundo.

    Agora, já atravessando a terceira dezena da vida, tenho me despido do receio de querer. Dou tempo para minha mente se acostumar com o lugar que ocupo, e me posiciono para sentir por inteiro tal qual a primeira mordida suculenta da fruta madura, que escorre entre os dedos.

    Li isso no seu olhar, que atravessou nossas superficialidades, perdido entre as nossas pequenas encenações de profundidade e as frestas involuntárias de verdade que escapam vez ou outra, como alguém insistindo em encaixar a peça faltante no lugar errado, por teimosia, por poder.

    Ah, a graça de ser seduzida nos meandros do próprio funeral.

    É sempre aquele gosto férreo e forte de sangue subindo na boca quando o soco rompe os lábios. A vergonha crua de compreender a mensagem. A vergonha ainda maior de perceber que, no fim, não existe erro algum: é apenas quem se é.

    O fantasma da subserviência ainda me acompanha pelos cantos. E existe uma indignidade particular em permitir brotar sentimentos, novamente, para as quais nunca se desenvolveu linguagem.

    Eu sei ler seu português, meu bem. Eu entendo suas entrelinhas e seus entremeios. Mas estamos aqui comemorando o nascer exclusivamente meu, o parto de algo que demorou muito pra se formar, e cuspo em formato extracorpóreo. Me duplico então.

    E, apesar disso, generosa que sou, não queria transformar esse momento apenas em um espelho. Sei que existem mais histórias paralelas entre o céu e a terra do que o cercado que construí em volta da minha cintura. Mas se a madrugada me altera a química do cérebro, quiçá a do corpo.

    Sou uma pessoa feita de excessos sensoriais, emocionais, imaginativos. Excessos contidos. Não quero mais lutar contra isso. Nunca mais.