Comprei um toca-discos. E isso é um evento na minha vida.
Não foi algo estranho. Meu primeiro vinil é de 2019, comprado no Roadburn, em Tilburg, durante minha primeira viagem internacional. Fui influenciada por um amigo de longa data que viveu o auge do disco como mídia principal. Eu sou de outra época, a do CD. Desde então, venho nesse colecionismo caro e irracional e já acumulo quase uma centena deles, mas sem o aparelho certo para ouvir.
Ontem, ao colocar a agulha da vitrola para tocar pela primeira vez, percebi que o prazer está no ritual, e ele é completamente privado. Tirar o vinil da capa, limpar, alinhar o braço, esperar o primeiro chiado. Tudo exige presença. Tudo tem tempo.
Nós, millennials, crescemos vendo tecnologias nascerem e morrerem rápido demais. Vimos o CD substituir a fita, o MP3 substituir o CD, e de repente, a mídia não existia mais, era um device, e agora precisamos pagar uma assinatura para escutar ou ver qualquer coisa. Aprendemos a viver cercados de mídias de fácil acesso, mas sem a curadoria que o físico nos obrigava a ter.
Livros, filmes, discos, fotografias, jogos. Tudo era caro. Para ter, era preciso entender o valor daquilo. E isso envolvia trocas de conhecimento com outras pessoas, com veículos especializados, com comunidades inteiras em torno de um interesse comum. Era um momento destacado do cotidiano. É isso que hoje em dia chama de hobby?
Hoje tudo virou arquivo, link, nuvem, instantâneo. E, sinceramente, isso vem me preocupando. Não temos mais a posse das coisas.
Parte da minha identidade foi construída pelo analógico. Assistir a um filme que meu pai havia gravado da TV seis anos antes. Esperar tocar na rádio a música de que eu gostava para gravar em fita e depois compartilhar com os amigos. Ir até a casa dos meus tios, retirar todos os CDs do deck, separados por ordem alfabética, ver o encarte, montar uma playlist e ouvir um por um acompanhando a letra. Economizar dinheiro para passar na locadora e alugar os filmes para assistir no final de semana com meus irmãos. As idas à biblioteca pública, os livros de 1950 que já haviam passado por tantas mãos, lidos por tantos olhos e pagar a multa por atraso. Muitas lembranças.
O digital não tem essa história. Não tem recompensa.
Talvez o analógico resista porque, em meio a tanta eficiência, sentimos falta do atrito. Dessa pausa necessária no dia em que tiramos os olhos da tela e nos dedicamos a um gesto ritualístico, como escovar os dentes ou tomar banho. Uma conexão simples com o agora. E com o que é verdadeiramente nosso.
Porque se esse disco desaparecer do streaming, contra a minha vontade, minha mídia física continuará aqui, esperando o momento certo e a quietude para tocar.
O valor de uma experiência, no fim, está menos na velocidade e mais na intenção. Está na emoção. Nem tudo precisa ser imediato. Algumas coisas só fazem sentido quando exigem tempo.





