(She’s a) Universal emptiness

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a white tube with a green stem

Minhas pequenas crônicas biográficas sempre começam com um empurrão vindo de alguma música. A essa altura, você, leitor anônimo e inexistente, já deve ter sacado isso. Além do título autoexplicativo, queria começar esse relato com uma pergunta do Kendrick Lamar:

When shit hit the fan, is you still a fan?

Estive muito introspectiva nos últimos dias. Nem consegui escrever, embora esse título esteja parado nos rascunhos do blog há pelo menos uma semana. Às vezes parece que as palavras não alcançam o que a gente sente. E quando isso acontece, tudo começa a escalar por dentro, ocupando espaço.

O centro dessa introspecção é o tal sentimento de dono. Não aquela do LinkedIn, de dono de negócio, mas a posse da própria vida. Tomar as rédeas. Fazer as coisas acontecerem. Resolver problemas. Limpar a casa, física e mental. Só que no momento estou recolhida. Entediada. Cansada. Da vida um pouco, e do mundo bastante. Estou com um senso distorcido de moral, de ética, desses valores que a família brasileira tanto gosta de defender.

Falando em família, nesses 35 anos venho desconstruindo pedacinho por pedacinho essa instituição também. Por sorte ou ironia, tenho muitos exemplos ao meu redor que viraram estudo de caso na terapia. Eles me mostraram que talvez minha visão de mundo não seja a regra. Talvez eu seja a exceção. E ai, vem Mortal Man, do Kendrick, que fala sobre a queda do ídolo, mas também sobre a ilusão de permanência – afetos, políticas, relações humanas. Afinal, o que é decidir ficar?

A gente firma tratados silenciosos durante a vida: pactos implícitos de cuidado, lealdade, presença, porém, às vezes, não há sequer nobreza nesse pacto. É carnal, de sangue e suor. Não dizemos, mas esperamos. Esperamos nossa humanidade falhar e encontrar um leito para repousar a culpa de forma confortável. Mas é fato: quando somos descobertos, o arrependimento se manifesta, mas eu… Eu não me arrependo de nada. E assim, a catarse, temos que lidar com sentimentos intransferíveis que não encontram eco no abismo.

Eu sou um péssimo espécime de ser humano.

Tenho pensado que, quando observo alguém imerso na própria inércia e, quando, à distância, tudo parece morto, esverdeado, consumido por um tipo de autofagia, se dissolvendo e se mastigando, nada está realmente parado. Por dentro, algo sempre se remexe. A mente segue arrastando perguntas, roendo decisões, ensaiando saídas ou sondando novas “entradas”. Aquele pesar se manifesta fisicamente, como uma graxa pegajosa que se esgueira e toma cada pedaço de quem se deixa a disposição.

E então, mesmo como espectadora, lidando com as próprias inseguranças e insuficiências, o contato com os fluidos das questões mal resolvidas da vida do outro pode infiltrar na gente. Pode atravessar, ocupar seu espaço vazio. A casa que você demorou pra limpar. E, quando se vê, aquilo que parecia externo já virou parte de você. Virou um problema seu.

Parabéns. Você acabou de ganhar uma nova chance de desenvolver seu personagem, de descobrir o que há de maligno e desleal nele. De abrir mais um ciclo na terapia. De danificar mais um pedaço do seu cérebro e encontrar novos motivos sórdidos pelo caminho. Eu estava no lugar errado, na hora errada, com as intenções erradas. E ainda assim assinei a cláusula bônus.

A ingenuidade, dessa vez totalmente consciente, me fez acreditar que era diferente. Escolhi entender como exceção. Achei que fosse algo dirigido, um instinto objetivo, que aconteceu porque era comigo. Mas podia ter sido qualquer uma, como sempre é – nada de novo sob o sol. A ocasião faz o ladrão. Não vou me eximir da responsabilidade pelas minhas escolhas, nem pelo que me permiti viver. Mas agora o foco é lidar com o que ficou. Essa é uma história em construção (ou em colapso). A ver.

O rumo dessa conversa começou com raiva e terminou triste. Como uma boa música do Swans. No fim das contas, ser universalmente vazia dá espaço demais para que todo tipo de coisa ruim se instale, não é?

O problema não é você. Sou eu.

She’s the mother of us all She’s the victim of my sadness And the more she tries to know it The more she’ll never fill it She’s a universal emptiness And a total lack of faith