Definitivamente, esse não é o meu ano. Nem o anterior foi. Desconfio que o próximo também não será. (Será?)
Estive lá. Inocentemente destruída. À deriva num mar feito de terror, mastigando os cacos de vidro que encontrava pelo caminho: penitência. E, ainda assim, havia esperança em mim. Pequenina teimosa que sou. Indecente.
Com o gosto metálico do sangue na boca, eu seguia. Sei lá como. Sei lá por quê. Era preciso manter a cabeça fora d’água. Mas o sal já tinha se entranhado em mim, e o corpo pesava, e alguma parte de mim começava a desejar o doce beijo das rochas profundas.
O tempo passou. E o tempo foi uma mãe. Cobriu meu corpo durante o sono, me embalou nas incertezas. Uma mãe, sim. Narcisista, porém. Dona de mim. Protetora e infanticida. Toda mãe que ama demais acaba devorando a cria. A alma ou o corpo.
Dia após dia. Mês após mês. Ano após ano.
Até que o tempo deixou de ser linear. Agora ele se embaraça nos meus dedos como fios de cabelo e escorre quente pelas minhas mãos, cola no meu suor, se prende à pele. E, na minha fantasia recorrente, ele vem como um choque quente nas costas, que se estende para o pescoço, como uma mordida esfomeada, apertando, apertando, rompe a pele devagar e irradia como um arrepio de medo. Prazer? E depois, mais nada.
Um delírio vívido. O de que o tempo não é mais uma coisa, e sim alguém. E eu, marionete: disponível, indefesa, à mostra. Culpada de todos os males da Terra, como toda mulher que se preze. E, ainda assim, digna de assistir ao fim do mundo da Sua altura, montada no dorso da besta de sete cabeças da profecia.
Que medo os Seus segredos escondem? Os meus já não me assustam mais. E a espera, que se converte em ansiedade, e se converte em doença, e procria dentro dela própria.
Existe cura? Quem diz que existe está vendendo alguma coisa: um chá, um curso, um deus parcelado em doze vezes. O que existe é o hábito. A gente se acostuma, como a um ruído branco. Um chiado no peito. Pneumonia.
Eu não vou deixar você cair aos pedaços, como eu caí. Quero te salvar sem promessa, sem bom-dia, de luz acesa e olho no olho, com marcas de dente, de unhas, com cheiro de álcool. O ar denso nem se mexe à sua volta, mas eu vejo você. Navego em você duas, três, quantas vezes forem precisas. Do lado de cá do vidro, o mesmo que eu mastigava, vejo a rachadura subindo pela sua borda, fina, trincando você devagar, do jeito que subiu pela minha. Estendo as mãos e seguro você. Sem peso, sem nome, por uma hora apenas. É o que eu posso. É o que podemos.
O mundo continua desabando em câmera lenta, e ninguém repara, porque todos estão ocupados desabando também. Talvez seja isso. Talvez todo abismo seja um só, e a gente apenas troque de beirada, em uma piscina infinita de tédio e escolhas erradas. Somos a mesma queda vista de ângulos diferentes. E eu, que nunca soube nadar, aprendi ao menos a não afundar sozinha.
Desculpa por tão pouco. Dei tudo o que tinha.
Until the very end of me. Until the very end of you.