Evocando Cazuza antes mesmo do café.
Antes de tudo, um aviso digno de rodapé de bula: depois de anos em terapia e algum grau de autoconhecimento, cheguei à conclusão de que sou especialista em sabotar a mim mesma. Corro atrás de picos de euforia como quem coleciona ressacas. Vivo de adrenalina parcelada e endorfina em conta-gotas. Um hedonismo doméstico, desses que se pratica entre silêncios e devaneios.
Mas, veja só, as escolhas têm consequências. E elas cobram juros.
O mais curioso? Não são os grandes choques que me derrubam, mas as pequenas rachaduras no que deveria ser estável. O que era feliz se torna chato. O que era neutro vira insuportável. E então chega ela: a insatisfação. Disfarçada de tédio, comendo pelas beiradas, implacável.
Confesso: meus momentos mais “estáveis” foram aqueles em que me mantive ocupada só para não pensar. Durante a pandemia, viver distraída foi uma espécie de escudo emocional. Fiz de tudo para não parar. Para não sentir demais. Para não ouvir o que vinha de dentro.
Mas no fim de 2021, a vida resolveu me parar à força. Primeiro veio o diagnóstico. Depois, a despedida mais difícil que já vivi: meu gatinho se foi. A ausência dele foi um buraco grande demais. Fiquei ali, no fundo. Tentando aprender a respirar de novo.
Subi devagar. Sem pressa. Sem mapa. Apenas tentando não voltar para aquele lugar escuro. E quando enfim alcancei a superfície, uma maré boa me encontrou. Mas a sorte, essa criatura volúvel, é descompromissada, e vem se afastando aos poucos.
Hoje, ainda sinto algo dela pairando por perto. Um sopro. Um vestígio. Encerrar essa fase não significa cair de novo. Aprendi a seguir mesmo sem saber onde exatamente estou pisando. Viver dentro do que é real, possível e controlável é, infelizmente, aquilo que aprendi a fazer melhor.
Tem gente que sonha com mares calmos. Com águas mornas onde se pode boiar sem medo. Eu, por outro lado, acho que preciso da inconstância. Um instante de calma e, no seguinte, estou descendo ribanceira abaixo com o corpo em chamas.
Queria ser menos assim, mas quando a tristeza me alcança, meu instinto visceral é procurar problemas.

